Torres é um município brasileiro situado no extremo norte do litoral Atlântico do estado do Rio Grande do Sul. A paisagem da cidade se destaca por ser a única praia do Rio Grande do Sul em que sobressaem paredões rochosos à beira-mar, e por ter à sua frente a única ilha marítima do estado, a Ilha dos Lobos.
O sítio da cidade foi habitado pelo homem desde milhares de anos atrás, que deixou testemunhos físicos na forma de sambaquis e outros achados arqueológicos. No século XVII, durante a colonização do Brasil pelos portugueses, por estar encravado em um estreitamento da planície costeira sulina, o local passou a se constituir rota de passagem obrigatória para os tropeiros e outros desbravadores e aventureiros luso-brasileiros vindos do norte pelo litoral - a única outra passagem que havia então era por cima do planalto de Vacaria - e que buscavam os rebanhos livres de gado que se multiplicavam no pampa mais ao sul e caçavam os indígenas para fazê-los escravos. Muitos acabaram por se fixar na região e se tornaram estancieiros e pequenos agricultores. E por dispor de morros junto à praia, logo foi reconhecido seu valor estratégico como ponto de observação e controle de passagem, de importância militar e política no processo de expansão do território português sobre o espanhol. Foi fundada ali na última quadra do século XVIII uma fortificação, que entretanto logo foi desmantelada quando a conquista se efetivou.
A construção da Igreja de São Domingos no início do século XIX atraiu para seu entorno muitos dos residentes dispersos na região, estruturando-se desta forma um povoado. Sua evolução ao longo deste século, porém, foi morosa, mesmo tendo recebido levas de imigrantes alemães e italianos, sobrevivendo numa economia basicamente de subsistência. A expansão econômica, social e urbana só aconteceu a partir do início do século XX, quando em vista de sua bela paisagem, clima ameno e boas praias de banho, o potencial turístico da cidade foi descoberto e passou a ser explorado. Desde então cresceu com mais vigor e celeridade, chegando hoje a se tornar uma das praias mais procuradas do estado, recebendo no verão um público flutuante mensal de duzentas mil pessoas, muitas delas estrangeiras, vindas principalmente dos países do Prata. Isso contrasta com as dimensões de sua população fixa, que pouco passa dos trinta mil habitantes. Não por isso deixou de desenvolver uma economia consistente e boa infra-estrutura para atender a esta demanda turística, sua fonte principal de renda.
Enquanto o
turismo trouxe progresso e crescimento, tornando a cidade um pólo
estadual para eventos, festas, competições esportivas, espetáculos
e outras atrações, trouxe também sérios problemas para o meio
ambiente e a cultura tradicional. Antes coberta pela Mata
Atlântica, ali de biodiversidade especialmente rica pela variedade
de ambientes criados pela geografia complexa da área, hoje tem este
patrimônio natural severamente ameaçado e muito reduzido, com
poucas áreas preservadas, já tendo perdido muitas espécies e
estando outras tantas em perigo. Há notícia também de especulação
imobiliária, de poluição, de pobreza, de criminalidade, todos
problemas graves encontrados em cidades com crescimento acelerado.
Este crescimento também tem repercutido negativamente sobre a sua
herança histórica e artística, pois ainda não se percebe uma
conscientização patrimonial bastante, por parte das instâncias
oficiais e mesmo da população, para frear o ritmo acelerado de
destruições ativas e perdas passivas de bens culturais materiais e
imateriais.
História
[editar] Pré-história
A região de
Torres, cidade litorânea do estado brasileiro do Rio Grande do Sul,
vem sendo habitada pelo homem há milhares de anos. Os primeiros a
percorrê-la foram grupos de caçadores-coletores-pescadores oriundos
do norte do continente, e que deixaram diversos vestígios na região
sob a forma de sambaquis, grandes montes artificiais de conchas
onde são encontrados frequentemente sepulturas humanas e objetos de
pedra e osso como machados, pesos de redes, anzóis, pontas de
flechas e esculturas representando aves, peixes, cetáceos,
quadrúpedes e raros antropomorfos, além de outros artefatos. Estas
populações acabaram, durante o Neolítico, por iniciar um processo
de fixação no local, adaptando-se para um modelo sedentário,
domesticando plantas como o milho, amendoim, tabaco, pimenta e
batata para cultivo e se tornando agricultores. Desta fase também
são encontrados vestígios de índios da chamada Cultura Taquara,
agricultores do planalto que vinham ao litoral sazonalmente para
pescar e coletar moluscos, a fim de complementarem sua dieta,
fazendo acampamentos em zonas limítrofes entre a restinga e as
dunas. Mais ou menos na mesma época a região sofreu uma invasão por
nova onda migratória, desta vez composta pelos guaranis, cuja
cultura era mais avançada e cujos relictos são mais complexos,
incluindo cerâmicas e objetos rituais, além de se supor que
tivessem já desenvolvido também a cestaria, a arte plumária e a
tecelagem.[6][7][8]
[editar] Colonização portuguesa
A geografia da área de Torres é singular. Estando numa longa planície litorânea que vai de Laguna até depois do Chuí, uma das mais extensas praias contínuas de areia do mundo, salienta-se nesta paisagem por ser possuidora dos únicos afloramentos rochosos à beira-mar, as chamadas "torres" de basalto vulcânico que lhe deram o nome. Neste local, além disso, a planície costeira, que ao norte e sul é mais larga, se afunila, o que fez deste ponto uma rota de passagem para todos que não quisessem transpor entre sul e norte tendo de percorrer os planaltos da Serra Geral. Os índios em suas movimentações já haviam percebido que Torres era um caminho natural, e haviam aberto picadas por ali antes de os portugueses chegarem.[9]
A colonização da área pelo homem branco iniciou não muito depois da Descoberta do Brasil em 1500. Uma carta de 1639 do rei Filipe IV de Espanha ao vice-rei do Peru Marquês de Mancera diz que desde tempos antes os paulistas vinham avançando sobre o litoral sul do Brasil. As trilhas abertas pelos índios se tornaram o caminho usado pelos portugueses ao longo do século século XVII, vindos do norte, para irem pouco a pouco se apossando de um território que pela lei da época pertencia à Espanha, por força do Tratado de Tordesilhas - a parte portuguesa encerrava na altura de Laguna, em Santa Catarina, bem mais ao norte. Uma crônica de Jerônimo Rodrigues narra que ali era a fronteira da nação indígena ibirajara, que dominava até o Rio Mampituba, tendo os patos ou carijós ao norte, mas que estavam sempre incursionando uns em terras de outros.[10][9]
Entre os pioneiros brancos que se aventuraram por aquelas paragens estavam caçadores de escravos, que vinham em busca de índios, e tropeiros que vinham arrebanhar o gado que se multiplicava livre no pampa. E Portugal ignorando os tratados permanecia avançando sobre terras da Espanha. Depois da fundação de Rio Grande em 1737 na barra da Lagoa dos Patos, no litoral sul do estado, os portugueses fundaram um registro militar na altura de Imbé em 1738. Porém, este não dava conta do controle de toda a área até a Serra, e se viu necessária a posse do estreitamento da planície costeira mais para o norte, onde Torres iria nascer. O primeiro local escolhido foi as pedras de Itapeva, cerca de 60 km ao norte de Imbé, criando-se outra guarnição militar, mas a qual, da mesma forma, se mostrou insuficiente, ainda não cobrindo uma última picada pela qual os contrabandistas de gado podiam passar sem ser vistos. No fim do século XVII já era registrada a presença de alguns residentes luso-brasileiros dispersos por esta região.
A partir de
1761 é registrada a concessão de algumas sesmarias entre Itapeva e
o Rio Mampituba, fixando novos colonos.[11] Em 1777 foi erguida no
flanco oriental do Morro das Furnas uma bateria com dois canhões,
chamada de Forte de São Diogo das Torres, com o objetivo expresso
de controlar os espanhóis que nesta altura haviam dominado a Ilha
de Santa Catarina e ameaçavam avançar para o sul. O local foi
escolhido por proporcionar uma visão elevada e desobstruída em um
largo círculo. Porém, diante do armistício, o forte foi abandonado,
mas o valor estratégico deste ponto continuou sendo reconhecido e
aproveitado. Por isso, o tenente-general Sebastião Xavier da
Câmara, governador da Capitania do Rio Grande de São Pedro, mandou
o engenheiro José de Saldanha erguer em 1797 uma nova guarda e
registro militar para controle e pedágio da passagem terrestre, com
duas peças de calibre 4 e um destacamento de soldados. O forte era
apenas uma guarnição de madeira e palha, com uma casinha de pedra e
telha para abrigar a pólvora. Em 1801 assumiu o comando da
guarnição o alferes Manuel Ferreira Porto, considerado o fundador
da cidade. Com a criação dos primeiros municípios da capitania, em
1809, esta área recaiu sob a jurisdição de Santo Antônio da
Patrulha, tornando-se o Distrito das Torres.
Início da urbanização
Não há mais
notícia do local até 1815, quando por ali passou o Bispo do Rio de
Janeiro, Dom José Caetano da Silva Coutinho, cuja diocese se
estendia até esta capitania. A pedido de alguns rancheiros da
região, autorizou a ereção de uma capela. Em 1818, por despacho do
Marquês de Alegrete, foi concedida uma área de 150 braças quadradas
para formação de um povoado e construção do templo, que entretanto
iniciou e logo parou pela extrema pobreza e desunião dos locais. O
ano seguinte marca a chegada do brigadeiro Francisco de Paula
Soares de Gusmão, enviado pelo Conde da Figueira, governador da
capitania, para reforçar a fortificação, que já estava novamente em
ruínas, e inspecionar a barra do Rio Mampituba e o litoral norte,
para verificar se por ali podiam se desembarcar invasores
espanhóis. Francisco fez como ordenado, e concluiu que um
desembarque era impossível, dada a ausência de um porto natural e
por ser um litoral perigoso para navegação. A ameaça espanhola que
voltara a assombrar os lusos no fim não se materializou, e o forte
deixou de ter razão de ser. Francisco recebeu ordem de se retirar
para a capital, mas percebendo a boa posição geográfica do lugar e
seu potencial econômico como passagem muito frequentada para a
Capitania de Santa Catarina, pediu para ficar e assentar
definitivamente a desejada capela para socorro espiritual de muitos
em uma área de 40 léguas em torno, que precisavam se deslocar até
Osório ou Laguna para o culto. Aprovada a solicitação, o conde
mandou em 1820 iniciar à "Povoação das Torres" com algumas índias
de Taquarembó. Francisco de Paula as tomou e fez que casassem com
brancos, e fossem morar num arraial erguido às margens da Lagoa do
Violão. Logo deu início às obras da capela, e antes que ela se
concluísse mandou vir para capelão o padre Marcelino Lopes Falcão.
No Natal de 1820 foi ouvida a primeira missa.
Em meados do mesmo ano a visitara o naturalista francês Auguste de
Saint-Hilaire, que deixou vívido relato da paisagem, da natureza e
da vida dos residentes. Ao chegar encontrara o alferes Porto
comandando cerca de 30 escravos índios a trabalharem nas estruturas
do forte. Em Itapeva pernoitou num casebre de treliça de estacas e
folhas de palmeira, "sem porta e (com) um quarto desprovido de
janela e mobiliário, onde a roupa branca e o vestuário de toda a
família são estendidos sobre traves". Em contraste com a pobreza da
habitação, a senhora usava um traje elegante e os cabelos penteados
com gosto. Na Estância do Meio, quatro léguas adiante, viu apenas
"algumas miseráveis choupanas". Para as refeições "desenrolam uma
esteira no chão e aí servem a sopa, reunindo-se toda a família ao
redor".
Entretanto, Francisco disse que o comando militar passou para o
alferes Porto somente no ano seguinte, e então a atividade teria
esmorecido. Proclamada a Independência, passando por ali em 1824 o
novo governante da ora Província de São Pedro do Rio Grande do Sul,
o Visconde de São Leopoldo, percebendo as potencialidades do sítio
e reconhecendo o bom trabalho anterior de Francisco de Paula,
voltou a encarregá-lo do povoamento e finalização da capela, o que
ocorreu em 1825, quando foi elevada a capela curada. A capela,
atualmente conhecida pelo nome de Igreja de São Domingos, se tornou
um chamariz para várias outras famílias que já estavam por ali
arranchadas, crescendo o povoado em seu redor, que em quatro anos
já tinha passado das mil almas. Francisco de Paula, na
correspondência que deixou, se revela um entusiasta pelo projeto,
ajudando novos moradores a se estabelecerem, abrindo ruas,
instalando fontes, criando um cemitério, casa paroquial, presídio e
outras benfeitorias, muitas vezes às suas próprias custas, além de
solicitar ao governo da capitania que enviasse outros recursos
humanos e materiais. Já nesta época começou a imaginar a construção
de um porto e regularização da barra do Mampituba.
Em 1826 a
Câmara de Santo Antônio da Patrulha iniciou a instalação de mais de
cem famílias de imigrantes alemães, protestantes nas colônias de
Três Forquilhas e católicos em São Pedro de Alcântara, a poucas
léguas para o interior do núcleo inicial do Povoado das Torres. Um
viajante alemão em passagem, Carl Seidler, contudo, disse que a
distribuição dos lotes foi desigual, os católicos recebendo os
melhores, o que causava frequente atrito com os protestantes,
chegando a se registrar "não raro conflitos sangrentos e até mesmo
os mais bárbaros morticínios". Disse mais, que a região ainda era
assolada por índios, que matavam gente e causavam destruições, com
a consequência de a população decrescer em vez de aumentar.
Francisco de Paula permaneceu dirigindo o povoado por cerca de dez
anos, e mais tarde deu um relato sobre as condições de vida por
então:
"Os socorros de peixe de água doce e salgada, unindo às produções de gêneros da primeira necessidade que superabundam no Distrito, favorecido pela natureza, permite afiançar que na Província não há certamente um lugar como as Torres para a pobreza viver. Ali a banana, que faz muita parte no alimento dos escravos e crianças, é efetiva todo o ano; as batatas chamadas inglesas, este pão dos Colonos, na falta do milho, abunda por toda parte, dando duas colheitas ao ano.... É fecundíssimo o Distrito das Torres, nele não se conhece seca.... e por isso os lavradores todos os anos têm duas colheitas de feijão e milho.... A mandioca também há em muita abundância, de modo que a farinha se chega a vender por baixo preço. As terras do Distrito são incomparavelmente boas para a agricultura.... Há muita terra apaludada própria para a plantação do arroz, era neste ramo da agricultura que eu desejava ver os habitantes empenhados.... É riquíssimo o Distrito de madeiras de construção e por isso se conserva com os de Palmares e Mostardas um comércio muito efetivo.... os Mostardenses trazem de seu distrito cavalos, bois, vacas e com estes gêneros compram carretas, charque, graxa, trigo, centeio, peles de carneiro, couros para curtir e alguns tecidos de lã, mas em troca levam nas suas carretas milho, feijão e farinha. Os serranos também fazem grande tráfego com as Torres".
Apesar das
visões positivas de Francisco, sabe-se que a sobrevivência do
povoado era precária, agravada por frequentes desentendimentos
entre os locais e a Câmara de Santo Antônio por causa de impostos
excessivos, interditos arbitrários sobre a pesca, divisão irregular
de terras e outras disputas, e pela eclosão da Guerra dos Farrapos
em 1835, que criou uma situação de penúria e tumulto, sendo
alternadamente ocupada por forças imperiais e farroupilhas. Em
pleno conflito, em 1837 foi elevada a Freguesia com o nome de
Freguesia de São Domingos das Torres.
Os relatórios oficiais da época são repletos de queixas pelas más
condições gerais e de súplicas por envio de ajuda da capital. Em
1846 havia apenas 187 proprietários registrados na cidade e menos
de 150 eleitores. A soma desses fatores acabou por levar à
emancipação em 1857 do então Distrito de Conceição do Arroio, hoje
Osório, separando-se de Santo Antônio e incorporando a si o
Distrito das Torres. Nesta altura a navegação interna pela rede de
lagoas e canais da região começava a se tornar mais intensa,
criando uma ligação entre o litoral norte e Porto Alegre por onde
passavam pessoas e bens. Vários deputados e administradores locais
tentaram promover o progresso, havia na prática um consenso de que
a região tinha um grande potencial ainda inaproveitado, mas embora
algumas melhorias fossem conseguidas, a própria Província não era
rica e pouco pôde fazer, e as queixas de pobreza continuaram.
Heinrich Handelmann, visitando em 1860, deplorou:
"O estado em que se acham ambas as colônias, Três Forquilhas e Torres, as duas juntas aproximadamente mil almas, é portanto lastimável; se os habitantes têm o necessário para a subsistência, entretanto, pela impossibilidade de saída regular dos produtos, falta-lhes o estímulo para incitá-los a serem ativos trabalhadores de lavoura e indústria; cortadas as colônias de toda a comunicação, com a gente da Província e com a velha pátria, elas permanecem como que enterradas no mato, devendo necessariamente degenerar espiritualmente".
A situação de
estagnação social, cultural, urbana e econômica se prolongou até o
início do século XX, chegando a surpreender que o povoado tenha
sido erigido, num mesmo ato de 1878, a Vila, e em seguida a Cidade.
Natural que perdesse o maior status, sendo reanexada a Osório.
Voltou a ser município só em 1890.[20] A Proclamação da República
trouxe principalmente agitação política para a cidade, que teve
diversos administradores se sucedendo em curto espaço. Outro
sobressalto foi a Revolução Federalista de 1893, servindo de
passagem para tropas. No mesmo ano começaram a chegar, descendo a
Serra, famílias de imigrantes italianos que não conseguiram se
fixar na região de Caxias do Sul. E a riqueza para a população
continuava a ser coisa desconhecida. O resumo dos cerca de trinta
inventários deixados por defuntos entre 1896 e 1898 indica que
naquele tempo quase metade das famílias ainda não dispunha de uma
mesa de refeições em suas casas.
Progresso
O molhe da Guarita, 1892
Em 1892 a
ideia do porto em Torres voltava a ganhar alento. Iniciou-se a
construção de um molhes na Praia da Guarita, para abrigar navios
que viriam trazer material de construção para o porto verdadeiro.
As pedras para o molhes saíram dos próprios morros vizinhos,
explodidos com dinamite (os rombos ainda são visíveis), mas em
breve o projeto foi abandonado, com apenas 50m de um molhe
construído.Na virada para o século XX Torres começou a se tornar
notícia frequente nos jornais da capital (mais de trezentas notas
entre 1895 e 1912), e a tônica dos debates era o aproveitamento dos
canais e lagoas para navegação interna, bem como a velha ideia de
construção de um porto; falava-se também na construção de uma
ferrovia. Essas obras deveriam certamente acelerar seu crescimento,
mas não se realizaram como o esperado. A solução para o atraso
socioeconômico e cultural veio de outra parte, quase
casualmente.
Na mesma época o Brasil procurava se modernizar, e olhava para a
Europa em busca de modelos de civilização; assim, entre outras
tendências imitadas começou a se notar a adoção pelas elites do
conceito europeu de férias e da moda dos banhos de mar,
considerados terapêuticos, e com isso começaram a chegar em 1910 os
primeiros veranistas, vindos do planalto gaúcho e de Porto Alegre.
Mas ainda não havia boas estradas, e a viagem, que durava de três a
quatro dias, era um empreendimento trabalhoso, ocorrendo geralmente
em carretas ou lombo de mulas e sendo necessário levar comida e
outros bens para um conforto mínimo, pois nenhuma estrutura
especial para receber esses visitantes ainda fora desenvolvida.
Esses veranistas pioneiros geralmente acampavam à beira-mar, ou se
hospedavam em uma das pobres pensões do local. Seus costumes eram
espartanos, e como relatou Mário de Freitas, os homens assim que
chegavam adquiriam um pijama, um par de tamancos, um chapéu de
palha de butiá e uma bengala de pau entalhado típica da região. As
mulheres usavam de regra apenas um robe de chitão ou opalina,
calçando chinelos ou sandálias. Os banhos eram tomados bem cedo,
seguindo uma ritualística própria de acordo com as ideias médicas
da época, recebendo o banhista somente um número de ondas
pré-determinado, o que era repetido por nove banhos, quando o
"tratamento" era dado por encerrado.
Dentre as personalidades que deram forte impulso ao desenvolvimento
de Torres, destaca-se quem primeiro percebeu e decidiu explorar o
potencial para o turismo da cidade: José Antônio Picoral. Filho da
colônia São Pedro de Alcântara, tornou-se próspero comerciante em
Porto Alegre, mantendo, porém, vínculo com a terra de origem.
Depois de um frustrante veraneio em Tramandaí, Picoral imaginou
transformar Torres em uma moderna estação balneária e, em 1915,
após entendimentos com João Pacheco de Freitas, Luiz André Maggi,
Carlos Voges e outros torrenses, instalou seu Balneário Picoral,
cuja sede a princípio foi o Hotel Voges, logo chamado Hotel
Picoral, marco histórico da introdução do turismo em Torres e o
maior empreendimento turístico do estado até então. Tinha grandes
pavilhões para atividades coletivas como refeições e festas, e uma
série de chalés para dormitório, organizados num quarteirão que
focalizou a movimentação social de seu tempo e criou em seu redor a
"zona nobre" da cidade, inaugurando um promissor caminho econômico
alternativo pelo qual a cidade pôde enfim crescer.
O hábito do verão à beira-mar pouco a pouco se difundiu, e a partir
da década de 1920 Torres acabou por ser conhecida pelos
riograndenses como um local da moda. A instalação de uma linha de
ônibus Torres-Capital tornou as coisas apenas um pouco mais fáceis
para os veranistas, pois as estradas ainda não passavam de picadas
esburacadas e sujeitas a alagamentos. Sobrevivem crônicas
bem-humoradas sobre os passageiros sendo obrigados a empurrar o
ônibus atolado no barro e juntas de mulas ou bois a tentar mover o
veículo. Isso não parecia incomodá-los. Conforme dizem os relatos,
era para eles tudo uma grande e divertida aventura, sabendo que
logo estariam desfrutando de momentos de descontração na beira da
praia, junto de amigos e parentes.
Esses novos visitantes trouxeram outros com eles, e mais outros, e
a cidade começava a mudar seu perfil urbano, aparecendo pensões,
outros hotéis como o Farol e o Sartori, mercados, abrindo-se ruas e
se multiplicando as casas de verão. O Balneário Picoral vai então
se tornar o centro de encontro de políticos e ricaços do estado,
além de organizar em seus salões saraus literários, bailes
elegantes e recitais de música. E logo diversos ilustres passaram a
comprar terrenos para construir chalés de veraneio requintados,
como Borges de Medeiros, Protásio Alves, Possidônio Cunha, Firmino
Torely e muitos outros.
Cardoso diz que nesta fase se consolidou a vocação turística da
cidade, ao mesmo tempo em que passava a ser vista como um local
civilizado, cuja natureza já estava domesticada e posta a serviço
do homem, especialmente pelo incentivo de médicos famosos da época,
como o próprio Protásio Alves, sempre lembrando os benefícios do
contato com o mar e a praia. Mas desde os primeiros momentos dessa
elevação a um novo status, Torres já começou a assumir uma
identidade peculiar como cidade de veraneio, o que torna as coisas
todas muito movimentadas em três meses do ano, enquanto no restante
a diminuição do número de pessoas presentes e atividades é
marcante. Outra transformação foi o gradual afastamento dos
agricultores e pescadores locais da participação integral nesse
processo civilizador, construindo-se espaços de socialização e
moradia bem diferenciados e exclusivos. Muitos desses nativos,
durante o verão, deixavam suas lides habituais e se dedicavam a
servir a elite que chegava como faxineiros, babás, cavalariços,
cozinheiros, jardineiros, ou empregados nos vários hotéis que iam
surgindo. Ao mesmo tempo, por causa desses grupos de forasteiros, a
maioria se conhecendo mutuamente e se frequentando, a praia começou
a assumir um perfil familiar. Nesse processo de "tomada de posse" e
transformação da cidade pelos veranistas, em 1936, no "salão nobre"
do Balneário Picoral, várias personalidades se reuniram para criar
a Sociedade dos Amigos da Praia de Torres (SAPT), movidas pelo
"ardente desejo manifestado pela maioria dos veranistas desta praia
no sentido de ser fundada pelos mesmos uma sociedade que encampe e
ampare, por todos os meios legais ao seu alcance, as nobres
iniciativas que visem o bem-estar, o conforto e a segurança da
população". A SAPT efetivamente se tornou daí em diante uma força
decisiva na determinação dos rumos da cidade.
Na década de 1950, com estradas melhoradas, o progresso começou a
chegar mais rápido. Falando naquele mesmo período, Renato Costa
narrou sua experiência pessoal:
"...a situação
transmudou-se, completamente. Não só a viagem se faz por excelentes
rodovias, como já se verifica uma tendência generalizada para
dar-se ao veranista conforto material mais digno e mais eficiente.
A visita que fizemos, sábado e domingo últimos, a Torres,
constituiu uma surpresa imensa, que nos encheu de orgulho. Não
podíamos imaginar que, em tão poucos anos, se pudesse remodelar
completamente um lugarejo, como era Torres, toda ela pavimentada
(em vésperas de serem asfaltadas as ruas), iluminada amplamente,
com um serviço de água corrente límpida e fresca! E o que é mais,
com numerosas e magníficas residências particulares de um apurado
gosto arquitetônico".
Veranistas na década de 1970, notando-se à esquerda já diversos
prédios de vários andares, atestando a transformação
urbana
As décadas
seguintes só viram a confirmação de Torres como cidade turística
estacional, ao mesmo tempo em que seus distritos iniciavam a se
tornar mais dinâmicos, organizando-se em núcleos urbanos mais ou
menos autosuficientes. Essa tendência acabou por levar diversos
deles à emancipação. Em 1988 separaram-se Três Cachoeiras e Arroio
do Sal; em 1992, Três Forquilhas e Morrinhos do Sul.
Com o desenvolvimento, que vem se acelerando recentemente, a cidade
cresceu, possuindo hoje mais de 30 mil habitantes fixos e uma boa
infraestrutura, capaz de acomodar um público flutuante de 200 mil
pessoas todos os verões, incluindo muitos estrangeiros, continuando
a manter seu prestígio como umas das mais concorridas praias do
estado, mas passou a experimentar dificuldades típicas deste
processo, tais como o descontrole na ocupação do espaço, degradação
do meio ambiente e formação de bolsões de pobreza.
Entre as preocupações atuais da administração pública estão solucionar esses problemas através de um modelo de gestão sustentável, chamando à participação as classes antes excluídas, preservando também a memória e o patrimônio histórico e cultural, fomentando as artes, e procurando romper o esquema da sazonalidade, a fim de diversificar a economia e equilibrá-la ao longo de todo o ano.
Meio ambiente
A área de Torres está incluída no bioma da Mata Atlântica, caracterizado localmente pelo predomínio da floresta perenifólia higrófila costeira.Na definição de 1999 do Conselho Nacional do Meio Ambiente a área de Torres é caracterizada como de restinga,
"um conjunto de ecossistemas que compreende comunidades vegetais florísticas e fisionomicamente distintas, situadas em terrenos predominantemente arenosos, de origem marinha, fluvial, lagunar, eólica ou combinações destas, de idade quaternária, em geral com solos pouco desenvolvidos. Estas comunidades vegetais formam um complexo vegetacional edáfico e pioneiro, que depende mais da natureza do solo que do clima, encontrando-se em praias, cordões arenosos, dunas e depressões associadas, planícies e terraços".
Contudo, a diversidade geomorfológica e hídrica da cidade, que se localiza em uma área de transição entre serra, litoral e pampa, propicia a formação de ecossistemas diferenciados, com ambientes de dunas, praias, costões rochosos, banhados, lagoas, campos, matas e restingas propriamente ditas, cada qual com sua flora e fauna específicos. Muitas espécies tropicais encontram nesta região seu limite sul, como Ipomoea pes-caprae, Aniba firmula, Licaria armeniaca, Ormosia arborea, Clusia criuva, enquanto outras, típicas do pampa e do planalto, têm ali seu limite norte, como Acathosyris spinescens, Jordina rhombifolia, Regnellidium diphyllum, Berberis laurina, Discaria americana e outras. A zona costeira também se constitui numa rota de aves migratórias de habitats costeiros. Mais de 60 espécies com ocorrência no Litoral Norte do Rio Grande do Sul pertencem a esta categoria, mas não nidificam no local.
Torres já está sob grande pressão ambiental, notando-se a ocupação desordenada do solo e o avanço rápido da urbanização, o desmatamento, a poluição e a destruição do ambiente natural, além de pesca e caça predatórias. Nas palavras de Guadagnin et alii,
"Os estuários e as lagoas são pressionados pela contaminação orgânica dos balneários, pela retirada de água para irrigação, pelos aterros e deposição de lixo e pela pesca desportiva e comercial. Os banhados e matas de restinga sofrem pressões severas pela expansão da agricultura e dos balneários. Nas lagoas, as populações das espécies de valor comercial estão fortemente reduzidas e, no caso das espécies de peixe-rei, em estado crítico. Os principais vetores de pressão nas lagoas interiores são a contaminação por agrotóxicos, principalmente através das bacias de drenagem dos rios Três Forquilhas e Maquiné, e a modificação dos habitats de margem, importantes para desova de peixes.... Estão se expandindo as atividades de lazer pesque-pague, em geral desenvolvidas em açudes, que utilizam espécies exóticas.... com efeito potencial de invasão dos sistemas naturais e de introdução de doenças e patógenos".
Ainda existe
uma rica biodiversidade em Torres, mas quase todos os grandes
carnívoros e herbívoros nativos estão localmente extintos,
sobrevivendo apenas poucas capivaras, jacarés-de-papo-amareloe
lobos-marinhos em migração desde a Patagônia. Estes até a década de
1980 ainda apareciam para acasalar em grandes grupos na Ilha dos
Lobos, que deve seu nome a eles, mas eram abatidos em massa por
estragarem as redes dos pescadores quando buscavam seu peixe, e
atualmente sua presença é mais rara. Também de passagem aparecem
golfinhos, baleias, botos e tartarugas-marinhas. Entre as espécies
animais ameaçadas na região se encontram o acima citado jacaré
(Caiman latirostris), a corvina (Micropogonias furnieri), seis
espécies de peixe-rei, a rã Physalaemus riograndensis, o lagarto
Liolaemus occipitalis, a marreca-caneleira (Dendrocygna bicolor), o
bugio-ruivo (Allouata fusca). Na flora se encontram sob ameaça, por
exemplo, o butiá (Butia capitata), o gravatá (Vriesea psittacina),
a quaresmeira (Rollinia maritima), o palmito (Euterpe edulis), o
buriti (Trithrinax brasiliensis), a vassourinha (Eupatorium ulei),
o cipó-rabo-de-macaco (Rourea gracilis), a taquara-mansa
(Merostachys pluriflora), algumas delas endêmicas.
Existem quatro áreas de preservação ambiental na cidade: a Reserva
Ecológica da Ilha dos Lobos, pertencente à União e contando com
apenas dois hectares, o Parque Estadual de Torres, com 15 ha, o
Parque Estadual da Lagoa da Itapeva, com mil ha, e o Parque
Estadual da Guarita, com 350 ha. Isso não basta para salvar a
grande quantidade de espécies ameaçadas da região, pois não há nem
área suficiente protegida, nem nas que há a representatividade
biológica é completa. Salvo na reserva da Ilha dos Lobos, todas as
demais têm áreas invadidas por habitações irregulares ou integram
áreas de urbanização mais antiga, cuja população rotineiramente
transgride as regras de conservação, seja ocupando o solo, lançando
esgoto e detritos, caçando e pescando, e interferindo na vegetação,
acentuando a pressão ambiental e fazendo degradar áreas até há
pouco em bom estado. A própria Ilha, por sua vez, embora o
desembarque seja proibido, é impactada pela presença em seu entorno
de barcos turísticos, surfistas e principalmente por barcos
pescadores clandestinos, que lançam suas redes a pouca distância
para capturar os cardumes que frequentam as rochas submarinas. O
governo estadual reconheceu que a situação das suas reservas é
precária, sofrendo com carência crônica de recursos financeiros,
infra-estrutura e pessoal. Na verdade, já não existe nenhum
ambiente natural intacto na região de Torres. Por outro lado,
algumas ONGs ambientais já atuam, e o poder público tem dado alguma
atenção ao caso, como por exemplo organizando o Plano de Manejo do
Parque Estadual de Itapeva, o Fórum de Manejo e Conservação da
Lagoa Itapeva e o programa do Corredor Ecológico Integrado do
Litoral Norte, através do qual estão sendo desenvolvidos vários
projetos piloto de utilização sustentável dos recursos da planície
costeira e da Mata Atlântica. Mesmo assim diversos vereadores
locais já se manifestaram contra o que consideram um excesso de
preocupação ecológica, que segundo eles vem a prejudicar a vocação
turística e a economia do município.








